No More Takes: Cognição Visual
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segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Gorila Invisível

Simons e a sua simpátia mascote
A Scientific American Mind de Maio/Junho dedica um artigo de seis páginas às 10 melhores ilusões ópticas de 2011.

Mas pergunto eu: quem nunca passou os olhos pela a imagem que representa uma moçoila a olhar para trás, que por artes mágicas se transforma numa anciã de perfil? As pessoas que passam por esta experiência ficam sempre assombradas pelo facto de o cérebro, a partir do mesmo estímulo, responder de forma diferente. Há qualquer coisa no estímulo que tende para a ambiguidade, e o nosso computador de bordo oscila entre as várias interpretações possíveis.

Estas tentativas de perceber como o cérebro resolve os problemas da Cognição Visual, têm um longo historial na Psicologia, nomeadamente na área cognitiva.

Como as ilusões nos fazem ver coisas que não existem na realidade, são uma poderosa fonte de insights sobre o funcionamento cerebral. Inicialmente, as ilusões clássicas socorriam-se de formas e linhas, mas o desenvolvimento de novas tecnologias - vídeo e computadores - permite engendrar ilusões com imagens em movimento. Sinal dos tempos, algumas das ilusões do Top 10 de 2010 eram animações, e podem ser vistas em acção aqui.

Esta área do conhecimento transformou-se numa plataforma ampla, partilhada por engenheiros de software, matemáticos, mágicos profissionais, designers gráficos, escultores e pintores. Em comum têm o fascínio pelo mapeamento das fronteiras da percepção humana. A sobreposição entre arte e ciência nunca foi tão grande: os cientistas estão a utilizar ferramentas do design gráfico para tornar as suas ilusões mais artísticas, enquanto os artistas procuram colher informação da neurociência da visão para os ajudar a expandir o impacto das suas criações.

Das ilusões que a revista aponta, há uma que sempre me fascinou. A primeira vez que ouvi falar dela foi numa aula de Fundamentos de Psicologia Cognitiva (um nome pomposo para Iniciação à Psicologia Cognitiva). O estarrecimento foi total.

A experiência foi levada a cabo em 1999 por Daniel J. Simons e Christopher F. Chabris. Vejamos como se desenrolou.

É pedido a dois grupos de participantes que observem uma gravação de outros dois grupos de pessoas que estão a jogar basquetebol entre si. Três dos jogadores vestem T-shirts pretas. Os outros três equipam de branco.

A tarefa dos participantes é bastante simples, resume-se a contar o número de passes feitos pelos jogadores que alinham de branco. O que poderia haver de mais simples?

A meio da experiência algo de inesperado acontece. Uma pessoa vestida de gorila passeia-se no campo do jogo, bate com os punhos no peito enquanto olha de frente para a câmara que gravou a jogatana. Após este espectáculo simiesco, sai de cena.

Agora vem a parte interessante. Quando os experimemtadores perguntam aos participantes se viram um gorila durante o jogo 50% diz que não.

Esta espectacular demonstração empírica tornou-se rapidamemente um clássico na pesquisa sobre os processos atencionais. O caso não é para menos. Os pesquisadores revelaram um exemplo paradigmático de enviesamento atencional, o fenómeno através do qual o nosso cérebro ignora informação que não é relevante para a tarefa corrente, neste caso contar passes.

Ou seja, aquilo que estamos a ver, não é a totalidade do que está a decorrer à frente dos nossos olhos. Há um afunilamento dos escassos recursos de que dispõe a nossa atenção, o que se traduz numa cegueira atencional. De uma forma curta e grossa: filtramos informação.

Ainda tenho presente o dia em que tive acesso a estes resultados. Num ápice, dei-me conta da nossa infinita propensão para o erro involuntário.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As Ilusões do Amor

Scientific American Mind  de Janeiro/Fevereiro traz um artigo dedicado a ilusões ópticas. Isso por si só não trás qualquer surpresa ao mundo. A percepção visual é um dos ramos da Psicologia que tem vindo a descortinar o modo como o nosso cérebro processa a informação visual. Dito isto, faz todo o sentido a inclusão de um artigo sobre as rasteiras que o nosso cérebro nos prega enquanto olha para o mundo lá fora, numa revista que tenta sumariar o estado da arte da ciência da mente. A piada surge quando as ilusões visuais apresentam os símbolos clássicos do romantismo. Escolhi três dessas figuras.  


Se atentarmos no centro da imagem acontece algo curioso. Ora vemos um botão de rosa, ora vemos um casal abraçado, ou seja, há uma impossibilidade ver as duas coisas em simultâneo. Ao tentar resolver a ambiguidade da figura o nosso cérebro escolhe uma das duas interpretações possíveis.


A imagem em cima é um ambigrama, isto é, uma construção tipográfica que pode ser lida a partir de dois pontos de vista diferentes. A palavra composta por "ambíguo" e "anagrama", foi cunhada por Judith Bagai, editora de The Enigma, o jornal oficial da National Puzzlers' League. Neste caso, constatamos que "love" e "amor" são os dois lados do mesmo objecto ambíguo.


Ao olhar para a figura damos logo de caras com um coração. Mas o coração não está lá. Este é um dos exemplos mais poderosos do poder das ilusões ópticas, que não passam de uma não correspondência entre a realidade e a percepção.
Aqui, é a existência de um contorno que nos dá a ilusão do coração trespassado pela seta. Mas como o contorno não está lá, podemos concluir que quando a informação é escassa o nosso cérebro trata de preencher o que está em falta. Rudiger von der Heydt e os seus colegas do Hospital Universitário de Zurique na Suiça, demonstraram que estes contornos ilusórios são processados por uma área cerebral dedicada à visão denominada por V2.

Afinal de contas, quem disse que para ver a realidade basta apenas abrir os olhos?