No More Takes: Instantâneos
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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Morning Theft ou manhãs palmadas à madrugada



Numa qualquer assoalhada suburbana, dois amigos conversam como se combinassem um café para umas horas mais tarde.

Então Johnny Boy? De malas aviadas? - pergunta o caixa de óculos cínico.

Sim, só faltam os CDs. Não consigo decidir os que levo para a viagem - responde um segundo caixa de óculos ansioso que atalha as palavras para perguntar


Quais os que levavas contigo? Anda, ajuda-me!

Os que ela gosta - responde o primeiro.

Os tacos deixam de ranger com a lufa-lufa do ansioso. Com o cenho franzido vira-se para o amigo. A boca articula

Ah? Mas quem vai fazer a viagem sou eu, pá!

Pois sim, mas se não chegares ao destino combinado sempre te lembras dela - remata o amigo que passou a tomar café sozinho.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Elogio da Noite


Fazer o turno da noite não passa apenas por trabalhar entre as quinze e as vinte e quatro horas. Das quinze para diante toda a lógica laboral é outra. É um estilo de vida contracorrente, crepuscular, batmaniano, olheirento, boémio (para quem discorda de qualquer um destes atributos, sugiro a elaboração de um inquérito a uma amostra representativa da população laboral do setor do retalho. A aplicação dessa poderosa técnica das Ciências Sociais teria como objectivo avaliar a frequência de saídas à noite, o número de copos bebidos, o número de marcas de cerveja, discotecas, pubs e botecos conhecidos e a quantidade de ressacas ao longo do ano civil. Hipotetizo que se não houver um efeito de desejabilidade social, leia-se: “vou mentir nas respostas que dou para me encaixar nas convenções sociais percebidas como correctas”, o pessoal da noite dá uma abada aos saudáveis da manhã. Paga o figado e a conta ordenado. Pode haver uma explicação para este comportamento altamente social, mas auto-destrutivo no meio termo: fazer tudo inversamente ao protótipo do compincha da manhã, para acalmar o medo irracional de ser parecido com ele. Tem um quê de psicanálise barata, mas leituras lacanianas têm inúmeros efeitos secundários para além do delírio. Descarto liminarmente qualquer hipótese que traga à baila os incentivos para explicar a escolha do horário noturno).


Um dia após o outro, o homem-truta (perdoem-me mas vou empregar o género masculino. Mulher-truta é uma expressão no mínimo foleira, embora imagética (oiço cantos de sereias? Vejo Ulisses amarrado a um mastro, enquanto é tentado em pleno Mediterrâneo?) até ao tutano) não embarca no meio dos colarinhos branco encardido na 113, não sofre de indecisão na escolha da indumentária a vestir por cima do pêlo porque o tempo ameaça o aguaceiro-molha-tolos-durante-sete-minutos-e-picos, não houve o ruído de fundo do noticiário da SIC Notícias (ou da TSF, ou da Renascença, escolhe o leitor em função da sua faixa etária mental) ao mesmo tempo que ferra o dente nos cereais  Linha Zero, não regressa a casa com o mesmo maranhal (só que mais suado, mais entediado, mais enfadonho) com que apanhou a 113 das um quarto para as nove, não vai ao café lá do bairro esfumaçar e discutir sobre a parelha Zé-Merckel e a volatilidade dos mercados nos intervalos dos jogos do Benfica. Enfim, não vai ao Facebook – esse grande cátologo La Redoute de pessoas –  às vinte e uma horas e trinta e sete minutos. E, principalmente, não escreve textos mal amanhado às três e picos da manhã.

Deitar tardíssimo, e tarde, e a más horas, erguer é a maxima do preguiçoso encartado que apenas está a perpetuar, o melhor que pode e deve, a bem da identidade noctívaga acérrima, o regime vespertino do tempo em que se sentava nas carteiras escolares pré-Magalhães. 


Ocupado o espírito com estes pensamentos tão pouco veneráveis, sou interpelado por um casal jovem que olha para mim como um par de náufragos que descobriu o seu sexta-feira. Estabelecido o contato visual, o meu  pouco musculado lobo frontal começa carborar a toda a velocidade para perceber que tipo de máquina esta parelha em apuros vai levar para casa.

Antes de iniciar a palestra sobre as vantagens do estabilizador óptico, olho de soslaio para o relógio. São dezanove horas e vinte minutos. Ainda faltam umas horitas até as doze badaladas me libertarem para mais uma noite de cóboiada na capital.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Com a bênção dos céus sopram cornetas de júbilo (ou as festas de S. Brás)


Quem pensa que a vitalidade de uma terra se avalia por indicadores económicos, está não só equivocado, como desatento em relação à realidade social da área metropolitana de Lisboa. A pujança de uma qualquer terriola  vê-se na preservação dos costumes foliões.

Em S. Brás, a festa do padroeiro é a mesma deste que me conheço. O anacronismo não é encarado como algo de insano, a julgar pelas conversas de café soltas no ar. O júbilo da repetição merece aprovação generalizada. Ano após ano, os cartazes em tons desbotados de vermelho repetem-se com as mesmas atracções. O próprio processo de metamorfose urbanística que se regista nesta época do ano, causa pouco ou nenhum espanto a quem vive por aqui. Ao som de uma mantra burlesca e estridente, os prédios de cores insípidas perdem altura, dando lugar a um complexo aldeão redesenhado pela soma das proveniências originais dos habitantes locais. A pequenez de Portugal não se mede pelos metros quadrados que tem o seu território, mas pelo eterno retorno dos seus costumes.
Há quinze anos atrás, o fim-de-semana das festas era motivo de violento conflito interior. Das duas uma: ou ficava barricado em casa a tentar distrair-me do tumulto e do cheiro a farturas, ou juntava-me a mais três compinhas para sentir o pulso ao arraial. Ganhava a curiosidade.

Nenhum de nós estava realmente interessado em ouvir o conjunto Sol&Dó (com um repertório de músicas em sol e dó) que tocava num estrado montado bem no centro do ringue da escola primária. O que nos motivava a entrar na toca do lobo não era o perfume dos couratos.

A aproximação a um alvo perigoso fazia-se por um circuito clássico. Encontro marcado nas escadas da minha rua, duas voltas ao quarteirão limítrofe ao arraial, compra de sumos na barraca mais distante do epicentro musical, e por fim, o estacionamento junto às grades exteriores da escola primária. Montada a emboscada resta a espera paciente do caçador.

No período pré-digital só havia duas formas de saber o paradeiro das pessoas: através do boca-a-boca ou em directo. E como a curiosidade tinha saído vencedora, em directo víamos as miúdas que durante o resto do ano andavam sabe-se lá onde.

Não há nada mais parecido a uma guerra de trincheiras do que a partilha do mesmo espaço por uma alcateia de chavalos imberbes e um grupelho de cheerleaders pseudo-sonsas. As movimentações eram escassas ou coreografadas, de forma a que a aproximação às barracas por membros de cada grupo não fosse motivo para um encontro gélido como a morte. Nestas idades, trocar dois dedos de conversa com espécimes do sexo oposto era equivalente a tentar descobrir água em Marte.
Com o avançar da noite, entre uma coca-cola e um sucol, os versos sobre bacalhau e Mariazinhas com um alho pelo meio tornavam-se inócuos ao ponto do pé bater reflexamente no chão. Chegados a este ponto só resta uma opção: desencostar as costas do gradeamento e desavergonhadamente convidar a miúda dos risinhos parvos para dançar ao som do nós pimba.

Por excesso de vergonha na cara decerto, sempre que desencostei as omoplatas das grades foi para pôr a primeira em direcção a casa. Nem o domingo de manhã podia ser consagrado à análise do filme de véspera, já que a ementa das festas de S. Brás tinha para entrada o coro angelical da missa campal, logo às dez da matina, seguido de uma matinée de foclore. Bendito facebook.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Vésperas

Triângulo de Penrose

O final de Janeiro aproxima-se a passos largos. Ainda ontem, o planeta inteiro festejava a entrada num novo ano. No intervalo da trinca de um rissol, os meus olhos atentavam na alegria da Austrália transmitida por uma qualquer tv generalista. O anúncio da alegria que nos esperava em Portugal, ao fim das doze badaladas, deve ter aquecido a alma dos telespectadores.
Na verdade, as manifestações de regozijo público espantam-me. Quando uma multidão congrega de um objectivo comum, por mínimo que seja, a minha crença no sapiens sapiens pede licença para sair. Mas, não haja dúvida que um salgado sabe melhor quando se vê discursos optimistas regados a champagne. Ao fim ao cabo, sobrevivemos mais um ano.
Por mais arbitrário que seja o limite que determina o fim de um ciclo, o carousel do tempo faz-nos acreditar que a nova voltinha será melhor do que a anterior. Mesmo que o preço do bilhete seja mais caro.
Longe vai essa noite. E o rissol também.
Na última sexta-feira de Janeiro acordo cedo. Não há nada de especial nesse dia, excepto o facto de ser sexta-feira. Rebobino o filme da minha vida para encontrar uma sexta-feira em que o humor estivesse deprimido. Há fotogramas nublados, mas nenhum sinal peremptório de chuva forte. Sexta é dia de pulmões cheios de ar, queixo apontado para o futuro, mangas arregaçadas até às axilas. Se me observasse de fora no decorrer desse dia, pouco havia a registar de diferente. Deslocação até ao café com o jornal debaixo do braço, quinze minutos a pé até ao comboio, já na plataforma, hesitação nas leituras - acabar o capítulo do livro que tenho entre mãos ou rir-me com o Pulido Valente -, chegar à faculdade, para umas horas mais tarde partir para um part-time. O que não é observável para terceiros é o espírito de véspera que me move. Mas véspera de quê? Do fim-de-semana, dos passeios domingueiros, da peregrinação a Belém? Da poltrona rodeada de jornais, um portátil e uma chávena de café? Nada disso me parece suficiente para justificar o estado inebriante que sinto às sextas. Arrisco a hipótese de este efeito de véspera semanal cumprir o mesmo propósito do efeito de véspera anual, que é a passagem de ano: levar-nos a crer, por umas horas, na inevitabilidade do optimismo.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A arte de pedir


Olho para o relógio. As cinco da tarde aproximam-se a passos largos. Do outro lado da rua há um café que o meu estômago aprova sem delongas. Lá dentro o estabelecimento é aprazível, acolhedor, quente. Encaminho-me até ao balcão, digo
Boa tarde
e recebo de volta
Boa tarde
Enquanto passo os olhos pelas garrafas em cima das prateleiras de madeira colocadas na parede atrás da minha interlocutora, sai-me um
Queria um café e um bom bocado se faz favor
para logo voltar para os rótulos, formas e cores das garrafas. Reparo que dos lábios recortados da minha jovem interlocutora pingam umas palavras cujo sentido não percebo. Tenho que focar toda a minha atenção sobre a sua face e juntar, a partir do desenho da sua boca, sílaba a sílaba do eco que ficou entre nós. Percebendo o meu embaraço repete
Queria ou ainda quer?
Quero é muito impositivo
disparo
É verdade. Mas não deixa de querer
riposta, para ao mesmo tempo me entregar o tabuleiro com um seco
É um euro e noventa cêntimos
Levo a mão ao bolso para tirar duas moedas pousadas sobre o vidro impecável do balcão. Esboço-lhe um sorriso devolvido com um
Até à próxima
Dirigo-me então para a única mesa vaga do estabelecimento esquecido das formas das garrafas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Futebolada Adiada

A noite aninha-se no ar. No parque central as luzes verdes dos candeeiros misturam-se com o azul carregado do céu. O jantar (sopa?) espera-me em casa dos papás. Com meio parque já percorrido e uns quantos pingos de água a escorrer pelas lentes dos óculos (a mania de não andar com chapéu de chuva), uma bola entra redonda na trajecto do meu pé esquerdo, por sinal o meu melhor. Pelo canto do olho vejo um puto encapuçado. Devolvo-lhe a bola em habilidade. Ao mesmo tempo que me agradece ('brigado!), cruza tenso com o pé direito para a entrada da baliza do ringue. Já vi aquela jogada: cheira a golo que tresanda. À boca da baliza, um segundo miúdo limita-se a encostar perante a resignação de um chavalo alto que faz de guarda-redes. Entretanto, com o casaco já despido e a mochila a um canto, preparo-me para ser admitido numa jogatana de rua. Mas a ilusão acaba de chofre. Um rumorejar de vozes alertam-me para as horas, para o jantar, para estudo, para o trabalho, para o estudo, para o jantar, para as horas, para..
Limpo os óculos à manga da camisa a pensar quando é que me tornei adulto.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A razão do hábito

Eu não ponho açucar no café. Se me perguntam a razão não sei bem o que responder (encolho os ombros ao mesmo tempo que viro as palmas das mãos para cima, acredito que é isso que respondo). Enquanto sopro e meto o líquido negro aos lábios, dá-me para pensar no velho hábito. Concluo sem grande necessidade de brilhantismo que não é motivado por uma crença fundamentalista pró-saúde, nem tão pouco reflexo de armazenamento criado por um receio de uma eventual ruptura de stock nas cadeias de supermercados. Se não sou cauteloso nem paranóico, resta-me uma hipótese para não ficar sem resposta na ponta da língua (como custa dar razões para os nossos hábitos): para ler as mensagens que me chegam aos dedos. Porque o que adoça o café é a esperança que as letras nos tragam algo de novo .